“Ter um ídolo é um fenômeno comum na adolescência. Todo mundo teve um dia, mesmo que em diferentes níveis de fanatismo. Às vezes, passa; às vezes, a pessoa cresce e continua fã. Na maioria dos casos, é inofensivo”, garante a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Leila Tardivo.
Se os fãs precisam do ídolo, é fato que ele também não vive sem seus admiradores. A cantora Ivete Sangalo, por exemplo, dedica enorme atenção aos fãs no Twitter. Sandy segue a mesma linha, assim como Luan Santana — que se refere aos admiradores como “amores”.
A Revista entrou no mundo dos chamados fãs de carteirinha, daqueles que investem tempo, dinheiro e amor incondicional numa relação que, muitas vezes, é apenas platônica.
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| Júlio Teixeira se encantou pela voz de Roberto Carlos quando tinha 5 anos: já se passou até por segurança para entrar no palco em um show |
Emoções ele viveu
Entrar na casa do policial civil Júlio José Teixeira, 41 anos, é como visitar um museu da vida e obra de Roberto Carlos. Em cada cômodo e porta de armário, uma revista, um livro, uma fotografia antiga, um disco raro encapado. A começar pelo lado de fora. O fã do rei recebe a reportagem com uma camisa cujos dizeres são impossíveis não reconhecer: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. É impressionante a desenvoltura com que fala da vida do ídolo. Diga uma música e ele de pronto lhe dará a autoria, o ano em que foi gravada e até com quem Roberto era casado. “Às vezes, eu sei a época pelo estilo da música. Se é mais alegre, mais divertida, provavelmente é da época de Myrian Rios (segundo casamento do cantor).”
Uma foto na parede do escritório denuncia que o policial não é o único fã da casa. Nela, a filha de 9 anos, a mulher e Júlio sorriem abraçados a Roberto, num show que fez em Brasília em 2008. “Nunca tinha conseguido entrar num camarim dele antes. E olha que foram mais de 10 shows.” Danielle, a filha, herdou do pai a paixão. Sabe de cor as músicas, avisa sobre aparições na TV e nas revistas. “Ela começou a gostar naturalmente, de tanto ouvir aqui em casa”, palpita Júlio. Foram 34 anos de espera, desde que o fã ouviu pela primeira vez a voz de Roberto no rádio, cantando Eu quero apenas, até aquele primeiro encontro, que resultou na foto, há dois.
“Como ele diria, ‘com palavras não sei dizer’”, descreve Júlio, sobre aquele encontro. “As pessoas dizem que pode ser ruim você conhecer pessoalmente o seu ídolo porque pode se decepcionar. Não foi assim com ele. Eu estava com um blazer preto e fiquei com medo de ele não gostar, por causa da superstição, mas ele veio até mim, me abraçou, pediu para tirar foto. Eu estava com as pernas bambas”, relata. A segunda vez, no ano passado, não foi diferente. “A gente sempre fica nervoso, pensa em coisas para falar. Na hora nunca sai nada do que você planejou.”
Júlio tinha só 5 anos quando ouviu pela primeira vez Roberto Carlos cantar na rádio que queria ter um milhão de amigos. Cantarolava o refrão o dia inteiro, mas nem sabia de quem era a voz. Três anos depois, ganhou o primeiro compacto, com a mesma música. “Como era o único que a gente tinha em casa, escutava o dia inteiro”, lembra. A coleção que hoje Júlio foi iniciada um pouco depois, quando ele começou a dedilhar canções do ídolo no violão. “As músicas dele são fáceis para quem está aprendendo. Eu comprava aquelas revistas com cifras e vinha um pouco da história do cantor junto. Foi aí que comecei a me encantar por ele.” As revistas do outrora aprendiz de violão ainda estão lá, preservadas como se tivessem saído ontem da banca.
O acervo de Júlio
Nenhum episódio da vida do rei passou despercebido por Júlio. O primeiro casamento? Está lá, em páginas plastificadas de uma revista antiga. Filhos? Também. Discos, CDs, livros que o cantor escreveu em 1967 (você sabia?), tudo arquivado em pastas com uma organização de causar espanto. Até uma gravação de 1966 em que Roberto Carlos mostra uma nova composição à banda. Os especiais de fim de ano da Globo ficam enfileirados na prateleira, um a um, desde 1974. “Só não tem o de 1999”. Como assim? “Foi o ano em que Maria Rita (última mulher do cantor) morreu. Não teve especial”. Ah, bom! E, entre pastas, revistas, LPs e CDs, lá estão uma cópia da certidão de nascimento e uma do rei. Entre outras relíquias, pétalas e folhas de rosas que ele recebeu das mãos do ídolo em alguns dos shows em que foi. Em quase todos, sentou-se na primeira fila.
Por falar em show, Júlio puxa da memória algumas histórias que consegue lembrar das 14 apresentações a que foi aqui em Brasília. A primeira em 1984, no Ginásio Nilson Nelson, quando tinha apenas 15 anos. A apresentação estava marcada para as 22h, mas o relógio não marcava nem uma da tarde quando Júlio e mais dois amigos esperavam os portões serem abertos. “Levamos um bolo, seis iogurtes e nove sanduíches para beliscar”, recorda-se. “Quando o pessoal começou a chegar, era todo mundo mais velho, meio chique. Ficamos com vergonha de abrir a mochila e comer as coisas. Passamos fome até o fim do show”, lembra, entre risadas.
Em outra ocasião, disfarçou-se de segurança para tentar se aproximar do ídolo. “Vesti a roupa e disse que queria fazer uma vistoria no palco. Fiquei lá um tempo, vi a banda passar o som. Quando foi chegando a hora do show, sentei em uma cadeira da primeira fila, para convidados, e fiquei torcendo para ninguém chegar. Acredita que o dono da cadeira não apareceu? Foi por Deus”, acredita. Em 2005, Júlio esteve em Cachoeiro do Itapemerim (ES), cidade natal do ídolo. Ele foi com seu acervo representar a região Centro-Oeste na 1ª Semana do Rei. “Conversei com o primeiro professor de violão dele. Visitei a casa em que ele morou, o quarto que nasceu, vi tudo.”
De todo fã-clube que tem notícias da existência, Júlio logo se adianta em fazer um cadastro. Foi ele, aliás, quem criou em 1997 o primeiro fã-clube virtual do rei. “Fiz tudo meio artesanalmente, virava noites no computador para criar o site.” Por meio dele, fez amigos do Brasil inteiro. Um deles é Eduardo Lages, o maestro de Roberto Carlos. “Foi por causa dele que consegui entrar no camarim. Ele sempre pede a nossa opinião quando vai gravar uma música. Virou um amigo.” Recentemente, Júlio sofreu com o ídolo a morte da mãe, eternizada na música Lady Laura. “Vi quando ele chorou ao cantar a música no primeiro show que fez depois de enterrar a mãe. Não tem como não se emocionar vendo a cena. É como se ele fosse alguém da família, um amigo”, compara.
Entre as relíquias
# Cópias da certidão de nascimento e identidade do cantor
# Uma gravação de 1966 de um ensaio do rei com a banda
# Livros de 1967 escritos por Roberto Carlos